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Circuito de São Gonçalo

Autor: Colaboração de Pedro de Albuquerque Maranhão | Publicado em: 19/09/2017

Em 19 de Setembro de 1909 o ACB promove a segunda corrida do Brasil, no circuito de São Gonçalo no Rio de janeiro, tendo como vencedor Gastão de Almeida, com seu carro Berliet que percorreu 42 km em 1 hora e 05 minutos, com media de 38,8 km h, margeando a linha férrea do bairro de neves até a Fazenda do engenho, no recém emancipado município de São Gonçalo. 

        A CORRIDA ACOMPANHAVA AS MARGENS DA FERROVIA 

 A MULTIDÃO ACOMPANHA A CORRIDA NAS RUAS E NA ESTRADA


O CIRCUITO DE SÃO GONÇALO

Gastão de Almeida, “recordman” de velocidade, em machina Berliet, 60 H. P.

Foi assim que o jornal Correio da Manhã do dia 20 de setembro de 1909 estampou na sua página 3 o resultado da 2ª corrida de automóveis do Brasil, realizada em São Gonçalo, estado do Rio de Janeiro. Um ano e alguns meses após a corrida realizada no “Circuito de Itapecerica” o evento em São Gonçalo contagiava o grande público presente nas arquibancadas e ao longo de todo o circuito.

 

Carro número 1 – Lorrain-Dietrich pilotado por Jorge Haentjen- trecho do filme “Circuito de São Gonçalo”

A corrida foi organizada pelo Automóvel Clube do Brasil, fundado um ano antes, e contou com o apoio do governador do Estado do Rio Alfredo Becker e pelo industrial Visconde de Moraes. Era o final de uma década em que eclodia uma verdadeira revolução nos transportes, marcada pelo surgimento da aviação e a chegada em grande quantidade dos primeiros automóveis na capital Brasileira. O próprio Correio da Manhã já destacava na véspera:

“O Circuito de S. Gonçalo, que tem 72 kilometros de extensão, não é uma prova puramente esportiva, é também um meio de propaganda dos industriais, que tem no automóvel um condutor rápido dos produtos pelas estradas, que aos poucos, com a boa vontade da diretoria do Automóvel Clube do Brasil e o auxilio dos governos federal e estadual, serão preparadas, ligando um e mais Estados à capital da República e tornando até mais fáceis as viagens por esses caminhos. A corrida de hoje é, pois, o início de um problema que tem forçosamente de triunfar, porque o progresso do país o reclama urgentemente.“

O entusiasmo era muito grande, e ainda na manhã da corrida o mesmo jornal conclamava o público a assistir a prova: 

“Para essa grande corrida que tem despertado o mais franco entusiasmo nas rodas esportivas por ser a primeira que se realiza aqui, inscreveram-se 16 amadores deste elegante Sport e que disputarão as taças Estado do Rio de Janeiro e Visconde de Moraes oferecidas pelo Dr. Alfredo Becker e pelo Visconde de Moraes, além de outros valiosos prêmios que oferece o Automóvel Club do Brasil. O público terá todas as informações das peripécias da corrida, por meio de telegramas e telefone, serviço especialmente organizado para esse fim e excelentemente instalado, de modo a facilitar notícias ao sportmen, em qualquer lugar na arquibancada. A Companhia Cantareira aumentou o número de barcas, a fim de facilitar o transporte dos sportmen e bem assim o número dos bondes em Nictheroy.” 

 O dia da corrida

Para transportá-los para a atmosfera da corrida farei uso das palavras registradas pelo Correio da Manhã após a manchete sobre o resultado da corrida:

“Dez horas da manhã. Na ponte da Cantateira alinham-se as máquinas dos corredores. A partida é demorada e maçante. Uma barca pode transportar, no máximo, seis máquinas, e cá fora é extraordinário o número de autos que esperam a sua vez. Autos de concorrentes, autos de simples curiosos, atraídos pela novidade do espetáculo. O desfile começa lentamente, e cada grupo de automóveis que embarca é seguido de uma enorme avalanche de pessoas.

Em Nictheroy. A cena já é diferente. Os automóveis saem e ganham as ruas, deixando após o cheiro ativo de gasolina em combustão. Os bondes são assaltados nervosamente, e há nos circunstantes uma preocupação única: encontrar ainda lugares nas arquibancadas.

A viagem de bonde para Neves é feita em pouco menos de uma hora. Os passageiros desembarcam na mesma ânsia com que se haviam pegado aos balaustres, depois da chegada a Nictheroy. Uma longa fita branca, alçada sobre a estrada, diz-nos em letras pretas, enormes: - Partida. Parte da grande massa embarca nos pequenos carros da estrada de ferro rural e segue com destino a Alcebíades de Alcântara, para desse ponto assistir à passagem dos concorrentes. A maioria dos populares dirige-se, porém, às arquibancadas, distantes uns cem metros, de onde se pode, comodamente, assistir à chegada.

Ponto de Largada - trecho do filme “Circuito de São Gonçalo”

Antes do meio-dia, o povo começa a afluir a esse ponto. Vários concorrentes experimentavam as suas máquinas, em desabridas carreiras, levantando pó e lançando no assistentes um leve frisson de entusiasmo, que era o começo de grande interesse pela corrida.

Momentos depois, a banda de musica da polícia militar, de Nictheroy, rompeu o hino nacional: era o presidente do Estado que chegava, em companhia do prefeito da vizinha cidade e altas autoridades. 

Carro número 6 – trecho do filme “Circuito de São Gonçalo”

 OS CONCORRENTES

À proporção que chegavam, os concorrentes apresentavam-se à comissão de corridas, dela recebendo a bandeira vermelha com que em caso de desastre, anunciariam aos companheiros o impedimento da estrada. Poucos minutos faltavam para a partida. Os carros de que se compunha a primeira turma de corredores ia se alinhando e seguindo em direção ao respectivo ponto. O primeiro a se postar foi um excelente Lorrain-Dietrich, 80 H. P., pintado todo de branco e conduzido pelo Sr. Jorge Haentjens. Em seguida vieram, sucessivamente, os Srs. Dr. João Borges Júnior, num Fiat 75 H. P., Dr. Francisco Cunha Bueno Netto, de S. Paulo, num também Fiat 50 H. P. e Gastão Ferreira de Almeida, num elegante Berliet 60 H. P. Era esta a primeira categoria de corredores, categoria de máquinas de maior velocidade e resistência.

 

Carro número 4 – Berliet pilotado por Gastão de Almeida - trecho do filme “Circuito de São Gonçalo”

A segunda categoria estaca alinhada, com exceção de um corredor, o dr. Oswaldo Sampaio, atrasado em viagem. Ficou constituída pelo Sr. F. Serrador, máquina Diato-Clément, 30 H. P.; Raul J. da Chagas, em esplêndido Fiat 40 H. P.; Charles Meyer, num Benz e C. Bozisio, de S. Paulo, num Fiat, ambas 40 H. P.

Estava assim constituída a primeira turma cuja partida seria iniciada à 1 hora.

Carro número 9 – trecho do filme “Circuito de São Gonçalo”

A segunda turma, que partiria duas horas e vinte minutos depois, foi desta maneira organizada:

José dÓrey, máquina Berliet, 22 H. P. , único concorrente de sua categoria, por ter faltado o seu competidor G. Berbisco, de São Paulo.

A outra categoria estava composta apenas dos carros dos srs. Raul Berroguin, máquina Renault 14 H. P. e Avelino Berroguin, máquina F. N. 14 H. P.

 Não se apresentaram os srs. F . de Oliveira e Fabio Prado.

Carros não identificados - trecho do filme “Circuito de São Gonçalo”

Havia uma terceira categoria em que figurava apenas o Sr. Joaquim Pontes, em um Peugeot 12 H. P. Esse concorrente não apareceu por ter sua máquina sofrido dias antes uma séria avaria na praia de Botafogo.

A PARTIDA


Preparação para a partida - trecho do filme “Circuito de São Gonçalo”

Pouco faltava para uma hora. Uma corneta lançou no espaço as notas lentas o sinal sentido!. Abriu-se um grande claro na estrada e a multidão alinhou-se de um lado e de outro lado. A mesma corneta anunciou depois a partida do primeiro concorrente. Sob uma nuvem de poeira, apareceu o automóvel branco de que era condutor o Sr. Jorge Haentjens e, numa disparada que era antes um vôo, desapareceu na primeira curva. Com ligeiros intervalos de três minutos, partiram os outros concorrentes, nessa ordem:

Borges Junior, Cunha Bueno, Gastão, Serrador, Raul Chagas, Carlos Meyer e Bozisio. Gastão de Almeida passou pelas arquibancadas debaixo de uma estrondosa aclamação, deixando após si uma nuvem densa de poeira, que chicoteava o rosto dos assistentes.

 

Após a saída do último corredor da turma, a multidão comprimiu-se nas arquibancadas, na ânsia de notícias da corrida que seriam transmitidas pelo telefone de diversos postes onde haviam sido instalados.

Carros e automóveis, conduzindo famílias, dirigiam-se para Alcebíades, de onde se podia assistir excelentemente à passagem dos corredores.


OS DESASTRES

Não se passara ainda meio hora, e uma notícia má circulou: havia incêndio num ponto distante da estrada. O motor de um dos carros explodira.

Diversas pessoas, em automóveis, partiriam em direção a esse ponto, que não se sabia bem onde era, na ânsia de conhecerem os detalhes do acidente e socorrer os feridos, em caso de os haver.

A explosão fora na máquina Diato-Clément do Sr. F. Serrador. Esse concorrente e o se mecânico tiveram a calma precisa para se deterem imediatamente na marcha vertiginosa que levavam, saltando ilesos do carro. Além do grande prejuízo matéria, nada havia a lamentar.

 

Carro acidentado - trecho do filme “Circuito de São Gonçalo”

Um outro acidente, que poderia ter graves conseqüências, aconteceu com o Lorrain-Dietrich, conduzido pelo Sr. Jorge Haentjens. Os assentos haviam-se quebrado bem como a caixa da gasolina, deu alento no precioso elemento em combustão. O Sr. Haentjens e o seu mecânico, fazendo prodígios de acrobacia, seguravam-se, firmemente, parando o carro sem serem dele cuspidos.

O Sr. Cunha Bueno, na precipitação da corrida, matou um porco que atravessava a estrada, acarretando-lhe esse acidente um grande atraso, por se terem arrebentado três pneumáticos. O Sr. Bueno ficou levemente ferido na mão, e pôde ainda conduzir a sua máquina na volta

 

Carro acidentado - trecho do filme “Circuito de São Gonçalo”

O terceiro desastre acontecera ao carro Benz do Sr. Carlos Meyer. Uma parada brusca, a que fora obrigado por desarranjo também nos pneumáticos e pelo receio de ir sobre um concorrente, fez com que o mecânico fosse atirado à distância, machucando-se em diversas partes do corpo, principalmente nos braços e pernas. Esse mecânico foi transportado para a sua residência, nesta capital, não inspirando, felizmente, cuidados o seu estado.


A CHEGADA

Poucos minutos depois das 2 horas, ouviu-se ao longe, das arquibancadas, o toque de sentido! Aproximava-se o primeiro concorrente em demanda do posto de chegada. A trepidação de sua máquina ouvia-se distinetamente, e, em poucos segundos, ela passou debaixo da faixa branca: era a máquina Fiat, do Dr. Borges Junior; fizera o percurso em uma hora e sete minutos. Não se havia ainda extinguido a impressão desse momento, ansiosamente esperado e, no meio da estrada, apareceu, distinguindo-se perfeitamente, pela sua cor amarelada, o carro do Sr. Gastão de Almeida, muito pálido, o rosto coberto da poeira do caminho, mal podia sorrir à multidão. Desceu rapidamente do carro, fugindo à curiosidade popular, e pediu água. Um ligeiro momento de descanso e ele perguntou jovialmente: 

- O meu tempo? Não sabem o meu tempo? 

Alguém informou:

- Uma hora e quatro minutos.

 

Carro número 4 – Berliet pilotado por Gastão de Almeida- trecho do filme “Circuito de São Gonçalo”

Gastão batera o Dr, Borges Júnior por três minutos, apenas. Restava saber o resultado dos outros corredores. Os momentos passaram ansiosamente e, não aparecendo na estrada mais carro algum, já não havia dúvida sobre a vitória, e o simpático rapaz foi pela grande massa proclamado o vencedor da prova de velocidade.

Chegaram depois: Raul Chagas, Fiat 40 H. P., que fez o percurso em 2 horas e trinta e oito minutos, ganhando o primeiro lugar dos corredores da sua categoria, e C. Bozisio, em segundo, por uma diferença de quatro minutos apenas.

José d’Orey, concorrente único da primeira categoria da segunda turma, saiu às 3:19 atingindo a faixa branca às 4, depois de fazer o percurso de quarenta e oito quilômetros.

O premio da segunda categoria foi ganho pelo Dr. Raul Berroguin, máquina Renault 14 H. P., num tempo de 58 minutos, batendo seu concorrente Honório Berroguin, por uma diferença de 2 minutos.Honório Berroguin trouxe dois pneumáticos furados.

Todos esses tempos foram tomados pelo Correio da Manhã. Não serão do Automóvel Club e, portanto, não podem ter caráter oficial. Salvo pequenas diferenças, que não deixam de haver, com certeza, eles são exatos e foram anotados com o máximo escrúpulo.

 

Carro número 6 – trecho do filme “Circuito de São Gonçalo”

O Sr. Lucien Lousson representou na grande festa de ontem a redação do jornal L’Auto, de Paris, da qual faz parte, e a Federação Internacional dos Sports, tendo ontem mesmo transmitido pelo telegrafo àquele jornal o resultado da corrida.”

Felizmente para todos nós há registros em filme preservados ainda hoje deste evento. Trata-se de um dos mais antigos filmes brasileiros preservado atualmente, se não for o mais antigo. O filme tem aproximadamente 8 minutos de duração, e é uma produção da Botelho Filmes. Atualmente esta preciosidade faz parte de um acervo particular, e apenas trechos deste filme podem ser vistos no documentário “70 anos de Brasil”. Porém o Auto Relíquias Clube de São Gonçalo já teve autorização para fazer uma exibição deste filme no ano passado e um de seus membros trabalha em um projeto que inclui a sua divulgação no próximo ano.

Enquanto não podemos ver este filme maravilhoso, nos resta fechar os olhos e tentar imaginar algumas cenas que os jornais e revistas da época registraram e também outras que não foram registradas, mas que certamente entusiasmaram os presentes naquela tarde. 

Como não imaginar os gritos e palmas de entusiasmo do público nas tribunas no momento da largada dos seus favoritos, o sportman Gastão Ferreira de Almeida e seu co-piloto, o machinista português Carlos Nunes Ferreira. A vibração do público foi tanta que fez com que o jovem piloto soltasse o volante do carro que se encontrava em plena aceleração, para agradecer as palmas da torcida no momento de sua passagem em frente à tribuna.

Imaginem também a ansiedade que tomou conta do piloto vencedor e de seu co-piloto, à medida em quem passavam pelos seu concorrentes da categoria principal. O primeiro a ser ultrapassado foi o Lorrain-Dietrich pilotado pelo Sr. Jorge Haentjens, parado por avarias na lateral da estrada. O segundo foi o  Fiat de Francisco Cunha Bueno Netto, que retornava lentamente à Neves com os 3 pneumáticos furados após atropelar e matar um porco. Porém não conseguiam avistar o Fiat de João Borges Júnior, carro muito mais potente. Era impossível para Gastão de Almeida não pensar no risco de uma falha no seu Berliet, pois ainda assombrava-lhe o problema mecânico que lhe tirou o primeiro lugar da prova de São Paulo no ano anterior. Naquela prova Gastão havia sido surpreendido pela queda do cárter de seu Lorrain-Dietrich a apenas 6 quilômetros da chegada, quando ele tinha uma vantagem de 5 minutos sobre o segundo colocado, Sílvio Penteado. Mas este ano havia de ser diferente, pois ele havia buscado na França uma máquina Berliet de maior durabilidade e tinha como seu co-piloto um mecânico especializado neste carro.

Na chegada o público por alguns momentos esquecera-se de as máquinas da categoria principal haviam largado com intervalos de 3 minutos, e vibrava com a chegada do Dr. João Borges Júnior. Porém, assim que o Berliet amarelo chegou e os torcedores que cronometravam os tempos confirmaram a vantagem de Gastão e de Carlos sobre João e seu co-piloto, a torcida eclodiu em vibração novamente. 

Neste ambiente de euforia ocorreu a premiação dos vencedores, com Gastão de Almeida recebendo as taças Estado do Rio de Janeiro e Visconde de Moraes. Naquela época o único prêmio material foram as citadas taças, que foram expostas por vários dias antes da prova na Ourivesaria Moreira e na casa Rezende, respectivamente, para serem apreciadas pelo público e almejadas pelos destemidos concorrentes. Mas a glória e o reconhecimento pela conquista certamente eram os maiores prêmios disputados.

 

Berliet AK 14 original de 1908

A máquina vencedora era um Berliet AK 14 com o peso aliviado pela remoção das peças e partes desnecessárias. Ela tinha também preparação de motor e reforços mecânicos feitos pelo mecânico e maquinista Carlos Nunes Ferreira-fotografia, tirada pouco antes da corrida.

  

“Os Vencedores”